Retalhos de Craig Thompson

Postado em Literatura com as tags , , , , , , , em 24/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Muitas coisas me chamaram atenção neste livro. As primeiras delas aconteceram antes de iniciar sua leitura. A capa é muito interessante: uma colcha de retalhos cuidadosamente escolhida pelo autor para servir de fundo aos personagens do romance. Explorando um pouco mais, antes de encontrar o índice há a página de abertura do livro, aquela antes da que tem o ISBN e as informações que pegamos para uma possível bibliografia, alguns a chamam de página de rosto, não gosto do termo; o importante aqui é que nela há o nome do autor e o nome do livro que pelo que pude perceber tem subtítulo, pelo menos para catalogação, ele se chama Retalhos: um romance ilustrado.

É isso, ele não é um quadrinho para adultos, com violência ou sexo que possa beirar a pornografia. Nele uma história é contada e para isso Craig Thompson se utiliza de tudo o que tem nas mãos e principalmente daquilo que não tem.

A maneira como Thompson descreve, escreve e desenha sua relação com o irmão mais novo é de uma sensibilidade rara. Um romance em quadrinhos que me faria discutir sobre o gênero se ele ja não fosse assim tão discutido e, se me permitem, discutível. Feito para pessoas que tiveram dúvidas na adolescência e na vida em geral, àqueles que não tinham certeza, mas sempre se acharam na obrigação de parecer tê-las.

Muitas vezes vi minha vida, e ainda a vejo, como uma página em branco. Fico louco para deixar minha marca nela. Veja que insano: quero deixar minha marca em minha vida. Uma marca dela nessa página supostamente em branco, ainda que essa marca seja vista só por mim ou que, mesmo se vista pelo outros, seja temporária. Uma vez me perguntaram o porque de estudar tanto, de trabalhar tanto, não sei a resposta exata a essa pergunta, até porque o contexto era outro, mas a sensação de prazer e até de poder que isso me dá ninguém nunca me propiciou.

Craig Thompson faz isso, deixa sua marca, uma marca sua em sua vida. Fenomenal!

São páginas e páginas dedicadas a representar uma única sensação, ao ler Retalhos fiquei, o tempo todo, com a sensação de querer ir rápido, pois queria saber o que aconteceria e ao mesmo tempo preso à página atual explorando cada detalhe das ilustrações e o que elas me contavam. Putz, elas dizem mais que páginas e páginas de alguns romances modernos… uma delícia de ler, na verdade Retalhos é uma delícia de experimentar.

Me senti como a muito tempo não me sentia ao ler um livro, fiquei triste por ele estar acabando, pensei: Que droga!, e agora o que vou ler?

Um livro para aqueles que acreditam que um romance é feito de retalhos, àqueles que acreditam que a vida é feita de retalhos, àqueles que acreditam que as relações familiares são feitas de retalhos, àqueles que acreditam que suas relações, sejam amorosas ou não, sejam feitas de retalhos, àqueles que acreditam ser feitos de retalhos, e principalmente àqueles que querem participar do que pode ser o novo meio de contar histórias. Leiam!

Craig Thompson com Retalhos venceu três prêmios Harvey, dois Eisner e um da crítica da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos. É editado no Brasil pela Companhia das Letras – Quadrinhos na Cia – e tem tradução de um velho conhecido dos quadrinhos, o jornalista Érico Assis.

Agradecimentos especiais à Carlos Eduardo Siqueira, o Kadu, professor do curso de pós-graduação da PUC em São Paulo, pela indicação. É, também, por momentos como esse, uma indicação totalmente despretenciosa, em comentário disperso, no intervalo de uma aula de poesia brasileira que estar na PUC é realmente valioso.

Não sei se é digno de nota, mas sempre soube, desde o primeiro quadrinho que a história teria tom autobiográfico, mas o Craig do livro é para mim o “CRÉG” enquanto o autor é o “CREIGUI”.

Uma vez disse em uma aula que uma autobiografia era 50% ficção, pois era a visão do homem sobre ele mesmo e isso não poderia ser classificado como “relato” histórico, e os outros 50% também. Quase me mataram. Ô gente ortodoxa. rs.

Deixando o Pago de João da Cunha Vargas

Postado em Cultura, Literatura, Música com as tags , , , , , , , em 12/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

O nome desse livro de poemas “Deixando o Pago” de João da Cunha Vargas me faz lembrar uma história que ouvi do poeta gaúcho Vitor Ramil.

Em uma das vezes que o encontrei em São Paulo ele contou que viajava com seus músicos pelo Brasil e em uma de suas apresentações antes de ”cantar” o poema Deixando o Pago de João da Cunha Vargas explicou à seus expectadores o porque do título do poema. Pago é, para o natural do Rio Grande do Sul, seu lugar de nascimento, sua região natal, etc.

Depois da apresentação um de seus músicos disse:

- Pô Vitor, pensei que deixando pago fosse ‘tipo’ ter deixado o aluguel pago ou algo assim…

O Vitor se matou de rir e disse que quando canta Deixando o Pago adora explicar o título, pediu desculpas aos que já sabiam ou já conheciam a história, mas disse ainda não conseguir deixar de contá-la.

Há alguns anos consegui um exemplar da única edição do raro livro de poemas Deixando o Pago: poemas xucros de João da Cunha Vargas editado pela Habitasul. Uma edição simples, muito cuidadosa e lindamente ilustrada por Glênio Fagundes.

João da Cunha Vargas nasceu em 28/12/1900 e não foi além das primeiras letras, como ele mesmo costumava dizer, não era muito manso de livros. Certamente aprendeu os segredos que nos conta ao ranger dos bastos e no tranco das tropeadas, talvez por isso sua poesia mais que repete o que o povo diz, ela tem uma inscrição pessoal poucas vezes vista.

Um nativista que se aproxima ao extremo das fontes tradicionais da poesia, poesia brotada em estado de pureza, sem contaminações intelectuais, feita para ser lida e declamada. João da Cunha Vargas sabia todos seus versos de cór – literalmente de coração.

Os poemas desse livro foram ditados pelo poeta a seus familiares ou retirados de fitas gravadas da época em que João da Cunha Vargas ainda interpretava seus poemas, como dizem, recriando-os na palpitação dos seus gestos comandados pela palpitação com que vivia, com seu timbre de voz ímpar, na névoa de seu olhar, na mistura de fogo e de nostalgia…

O poeta não está mais entre nós e se da morte me afugento a ela me entregarei com esperança de poder ouvir cada um desses versos.

(…)

E vou levar quando eu for

No caixão algum trofeu:

Chilena, adaga, o chapéu,

Meu tirador e o laço

E o pala guapo no braço

Pra gauderiar lá no céu.

                                           (Gaudério)

João da Cunha Vargas e seus versos me perseguem, me ajudam na perseguição que faço. Ele e Vitor Ramil sempre retornam a minha vida e a mim. Nesta semana eles voltaram, não estavam longe, mas voltaram…

Vamos enfrentar-nos mais uma vez.

O poema Gaudério pode ser lido em http://letras.terra.com.br/vitor-ramil/200616/ e ouvido em http://www.youtube.com/watch?v=GbNKIh_dPdI

Ervas Daninhas de Alain Resnais

Postado em Cinema com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 05/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Inspirado no romance L’Incident de Christian Gailly, Ervas Daninhas do excelente diretor francês Alain Resnais concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2009 onde Resnais recebeu um prêmio especial pela importante e excepcional contribuição à história do cinema.

Hiroshima Mon Amour de 1959 e O Ano Passado em Marienbad de 1961 o consagraram como um dos grandes nomes da Nouvelle Vague.

Ainda em plena forma Resnais que também dirigiu Medos Privados em Lugares Públicos em cartaz desde 2007 no HSBC Belas Artes, cria uma história romântica surpreendente e tragicômica a partir de um tema mínimo e insignificante.

Marguerite Muir (Sabine Azéma de Pintar ou Fazer Amor e Beijo na Boca não) tem sua bolsa roubada na saída de uma loja, a propósito o início do filme é expetacular, o ladrão de sua bolsa joga suas coisas fora e sua carteira é encontrada por Georges Palet (André Dussollier de Amores Parisienses e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) que a entrega ao policial Bernard (interpretado pelo excelente Mathieu Amalric de Um Conto de Natal e O Escafandro e a Borboleta, mesmo em participação discreta). A partir daí a história se desenrola com a criatividade de um cineasta de espírito lúdico, sem amarras e tão livre quanto fascinado pelo mistério das paisagens mentais – suas e de seus expectadores.

Filmes como esse fazem com que eu admire ainda mais o cinema francês. Me sinto em débito por não ter escrito sobre os filmes de Christophe Honoré (Em Paris, Canções de Amor, La Belle June e o recente Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar), de Cédric Klapisch (As Bonecas Russas, Albergue Espanhol e Paris) ou de Philippe Claudel (Há Tanto Tempo Que Te Amo), mas preciso registrar meus mais sinceros agradecimentos aos Espaços que provilegiam uma programação de qualidade como O Espaço Unibanco de Cinema na Rua Augusta, O HSBC Belas Artes na Consolação e o Cine Bom Bril no Conjunto Nacional, o que seria de nós, amantes do bom cinema, sem eles?

Quanto a Ervas Daninhas veja o inusitado “trailer” em http://www.youtube.com/watch?v=ElZVyThr3xo e, não perca! Espere um pouco, antes de dizer: NÃO PERCA, deixe-me contar uma rápida história. 

Um dia no HSBC ao comprar ingresso uma das moças da bilheteria me disse:

- Esse filme é um musical!

Fiz uma cara de interrogação e um leve movimento de ombros, como quem não sabe o porquê de tal informação. Claro que eu sabia que era um musical!!!, mas ela me explicou:

- Não, moço, tô falando, pois tem gente que não sabe, não gosta de musical e depois quer o dinheiro de volta.

Olhei pro rapaz que estava rindo ao meu lado e disse sorrindo para a moça da bilheteria:

- Acho melhor você dizer que é um musical francês!

Se aprendi algo nesse dia foi que embora pareça desnecessário, vale a pena dizer:

Vá ver Ervas Daninhas, não perca!!!, mas lembre é um filme de um diretor formado na Nouvelle Vague e francês. rs.

Literatura em até 140 caracteres (no metrô)

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , em 02/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Há alguns meses um grupo de amigos decidido a dar um “uso decente” ao twitter preparou microcontos em adesivos e os colou no vagões e estações do metrô de São Paulo.

“Entrou, se sentou. Ele não suportava o calor. Mas, com vagar, tentou se erguer pra sair outra vez.” Ao se depararem com a passagem que reflete sua própria condição, usuários do metrô de São Paulo reagem com certa perplexidade. O retrato literário colado na parede do vagão provoca risos, desprezo e, em alguns casos, reflexão. Assim, o trecho atinge ou se aproxima de atingir o objetivo proposto pelo grupo Sem Ruído, que espalhou microcontos em trens e estações do sistema de transporte público da cidade.

O exercício é inspirado na tradicional forma do haikai japonês e na cultura contemporânea da sticker art. É uma forma de fast food literário, as mensagens eram abertas, tinham começo, meio e fim, mas a interpretação e a relação de cada usuário do transporte público com cada uma delas era, naturalmente, pessoal.

É sempre difícil incentivar ou influenciar positivamente o comportamento das pessoas, mas iniciativas como essa deveriam ser mais comuns e não podem deixar de aparecer ou (re)aparecer na cidade. Sinto falta desses microcontos, com eles era mais divertido utilizar o metrô de São Paulo…

Poucas são as pessoas que pretendem tornar a vida das outras e da cidade melhor. Minha resolução de final de ano, dentre tantas outras, é tornar as pessoas tão felizes quanto eu mesmo gostaria de ser.

Posso fazer tudo errado, mas não ficarei parado. Quem se habilita?

Poesia no metrô

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , , , , , , , , em 26/11/2009 por Milton Sgambatti Júnior

Há pouco mais de um mês os usuários do Metrô de São Paulo podem ler poemas de Camões, Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac, Alphonsus de Guimarães, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e outros. Principalmente nos horários de pico, ganhamos um motivo extra para não correr para garantir um lugar no vagão. Agora é possível, enquanto esperamos pelo próximo trem, deliciar-nos com alguns poemas.

A novidade ”invade”, inicialmente, os trens e as estações da linha verde e os poemas, em língua portuguesa, foram selecionados pelo poeta Cláudio Willer e por Carlos Figueiredo. O responsável pela direção de arte é o artista plástico Antônio Peticov.

Segundo a direção do metrô e a organização do projeto uma das principais intenções da iniciativa é provocar nos usuários o interesse pela leitura. A intenção é expandir a ideia a todas as estações do metrô paulistano em 2010.

Sabemos que mesmo quando não compreendemos um poema em toda sua extensão e intenção ele pode nos tocar de modo particular e modificar nossa relação com nosso corpo e com o outro.  Que essa seja a primeira de muitas atitudes que possam incentivar a leitura, em especial a leitura lírica.

Muitos não sabem, mas em São Paulo há locais nos quais podemos ter acesso à poesia todos os dias da semana. Saraus, leituras, leituras dramatizadas, acesso a livros, etc, com texto de poetas consagrados, contemporâneos e anônimos, não há restrição. Prometo divulgar uma breve lista assim que possível.

Jornada Literária – Os Sertões

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , , , , , em 03/11/2009 por Milton Sgambatti Júnior

sertoes01A PUC-SP planeja para o próximo final de semana a VIII Jornada de literatura “Os Sertões de Euclides da Cunha”.

Entre os convidados e palestrantes estão o prof. Dr. Erson Martins de Oliveira, o prof. Dr. Francinco Foot Hardman e a profa. Dra. Edilene Matos. A jornada tem organização e mediações das professoras doutoras Maria Rosa Duarte de Oliveira, Vera Bastazin e Maria Aparecida Junqueira.

Maiores informações e programa da Jornada em http://cogeae.pucsp.br/curso.php?cod=253609&uni=SP&tip=RE&le=O&ID=6 .

A Jornada é uma atividade de complementação dos estudos literários do curso de Especialização em Literatura e do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP de que faço parte. Esse estudo faz parte das comemorações do centenário da morte de Euclides da Cunha (1866-1909). A jornada será composta por conferências e mesas redondas de especialistas convidados, que possam mostrar a repercussão dessa obra em nossa literatura e cultura. Haverá espaço para debates e conversa com os especialistas após cada palestra.

Se gosta de literatura e acha a obra de Euclides da Cunha difícil, mas muito interessante ou instigante, venha à Jornada; a naturalidade, profundidade e amor com que o prof. Erson fala da obra nos deixa cada vez com mais vontade de penetrar na leitura d’Os Sertões. Uma leitura que modifica seu modo de ver a literatura, o Brasil e o fazer literário.

A riqueza vocabular d’Os Sertões nos prende como cipós em uma entrada de mata, só um facão pode nos ajudar. Embora a leitura e a escritura seja direta, o leitor se vê preso à obra, ao mar desconhecido de palavras de seu texto. Indico a edição comemorativa editada pela Ateliê Editorial, material totalmente organizado (prefácio, notas, edição, cronologia e índices) por Leopoldo M. Bernucci com prefácio imperdível e que orienta a leitura, excelente acabamento e com mais de 3000 notas de rodapé (muito bem tratadas e de extrema importância na leitura).

Esquenta da 33ª mostra internacional de cinema de São Paulo

Postado em Cinema, Cultura com as tags , , , , , , , , , , , , , em 14/10/2009 por Milton Sgambatti Júnior

chansons_amourO cinesesc já iniciou os preparativos para a trigésima terceira edição da mostra internacional de cinema de São Paulo, que terá estréias imperdíveis e alguns filmes dos quais já ouvi falar e prometo postar depois, mas antes disso devo lembrar a programação pré-mostra com o esquenta para a mostra.

Nessa segunda-feira fui, pela terceira vez, ao cinema para ver Canções de Amor, musical francês maravilhosamente dirigido por Christophe Honoré de Em Paris e La Belle June, todos com Louis Garrel e canções de Alex Beaupain, esse último tem participação especial no longa em momento marcante e de extrema emoção.

Bom serei breve, caso contrário ficaria horas escrevendo sobre Canções de Amor que adorei e é um dos poucos filmes que me levaram mais de uma vez ao cinema nos últimos anos…

Os imperdíveis desse esquenta, em minha modesta opinião são: Canções de Amor, Short Bus, Teorema e Você, os Vivos. A programação vai até dia 20 de outubro e aproveite, pois muitos deles estiveram por muito pouco tempo em cartaz – ou nem isso - e não há disponibilidade em DVD da maioria. Eis a triste sina dos que gostam do bom cinema (…)

Dizer que os preços são camaradas é desnecessário, pois acredito que todos já sabem disso, mas na segunda paguei R$ 2,00 pela seção. Ridículo!

Consulte a programação completa em http://ofinodamostra.com/2009/10/12/mostra-esquenta-no-cinesesc/ e divirta-se.

Ah, a trilha sonora é belíssima e só há disponível importada na Amazon inglesa (http://www.amazon.co.uk/) ou por encomenda na Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br), mas tem ótima relação custo-benefício, pois além das músicas o encarte é muito bem trabalhado.

Poética indígena

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , em 20/09/2009 por Milton Sgambatti Júnior

20092009903

 

 

Ao ler o poema de Manoel de Barros Kosmofonia MBYA Guarany tive certeza que deveria me encontrar com meus inícios.

Nesta semana, na revista Fronteiraz da PUC-SP, publiquei um ensaio sobre esse primeiro contato.

 

 

 

 

Leia-o em: http://www.pucsp.br/revistafronteiraz/estudos.html

Abaixo o poema:

 

Kosmofonia MBYA Guarany

 

Ouvi os cantos, a voz, os murmúrios

dos MBYA Guaranis. Eles me transportaram

para a fonte das palavras. Me levaram

para os ancestrais, para os fósseis

linguisticos, lá onde se misturaram

as primeiras formas, as primeiras

vozes: A voz das águas, do sol, das

crianças, dos pássaros, das árvores

das rãs… Passei quase duas horas

deitado nos meus inícios, nos

inícios dos cantos do homem.

 

Manoel de Barros

III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso

Postado em Cinema, Cultura, Música com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 07/08/2009 por Milton Sgambatti Júnior

lumiereNos idos de 1895 no Boulevard des Capucines, no centro de Paris, havia uma enorme fila que se estendia por centenas de metros, todos os que por lá passaram não puderam deixar de notá-la. Essas pessoas deviam imaginar o porquê de homens, mulheres e crianças estarem ali, protegidas do rigoroso inverno por pesados casacos a espera de sua vez de entrar em uma pequena sala do subsolo do Grand Café, faustosamente batizado de Salão Indiano.

Uma vez que os 100 lugares do salão estivessem tomados os expectadores, em frente a um pano branco estendido em uma das paredes do salão, assistiam a um fantástico espetáculo de luzes e movimento jamais imaginados naquela época. As imagens se movimentando em um pano branco e a verossimilhança com a realidade exibidas na grande tela eram realmente impressionantes.

A sessão durava cerca de 20 minutos e custava 1 franco por pessoa. Os que puderam participar desses primeiros momentos do “cinema” não devem ter se arrependido do tempo e dinheiro investidos.

Os responsáveis por isso eram os irmãos Auguste e Louis Lumière. Segundo Louis essa havia sido a mais fácil invenção de sua vida; nesse momento ele não deveria imaginar que seu cinema se transformaria em arte e em um negócio milionário que movimenta milhões em todo o mundo.

Em homenagem aos dois primeiros filhos do humilde casal Antoine, pintor de letreiros, e Jeanne-Joséphine, lavadeira, realizar-se-á de 7 a 16 de agosto de 2009, na Cinemateca Brasileira, a terceira edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso.

Como nas edições anteriores, além das sessões dedicadas ao cinema brasileiro que contará com a exibição do filme, inédito no Brasil, The River of Doubt (O rio da dúvida), documentário da expedição à Amazônia realizada em 1914 pelo ex-presidente americano Theodore Roosevelt, em companhia do coronel Cândido Rondon, a Jornada privilegia a cinematografia nacional do período silencioso destacando os trabalhos dos arquivos de filmes de um determinado país e, nessa edição, aliando-se às manifestações relativas ao Ano da França no Brasil, apresentará o cinema silencioso francês.

Dentre os destaques da mostra, como era de se esperar, está uma coleção dos primeiros trabalhos dos irmãos Lumière. Em sessão imperdível no sábado às 19 horas será apresentada uma coletânea de curtas que terá o acompanhamento do instrumentalista brasileiro Léo Cavalcanti, que muitas vezes rouba a cena nas apresentações e acompanhamentos de que participa. Também interessantíssimas devem ser as sessões que contarão com o acompanhamento do pianista catalão Jordi Sabatés.

Além da exibição de curtas e longametragens a programação na Cinemateca e na Sala São Paulo ainda contará com conferencistas como Caroline Patte e Isabelle Marinone.

Se gosta de cinema e quer experimentar um pouco do que foi a invenção do cinema na França consulte a programação do evento em http://www.cinemateca.gov.br/jornada/prog_all.php e programe-se para perder apenas o que não conseguir “encaixar” em seus dias e horários. Por programas como esse vale a pena reprogramar esses dias de reclusão e cuidados com a saúde.

Euclides da Cunha de Os Sertões

Postado em Literatura com as tags , , , , , , , , , em 30/07/2009 por Milton Sgambatti Júnior

sertõesAcho muito estranho uma frase que contenha algo como “… em agosto celebra-se o centenário morte de …”

Não sei quanto a vocês, mas celebrar o “aniversário” de uma morte é na melhor das hipóteses mórbido. Nesses últimos dias muito se escreveu sobre o centenário da morte de Euclides da Cunha (1866-1909) e invariavelmente nos textos aparecia um dos termos: celebra-se, comemora-se, festeja-se ou outro de mesmo teor e significado.

Poucos sabem as circunstâncias de sua trágica morte, mas Euclides da Cunha morreu em 1909 durante duelo com o amante de sua esposa; sua grande obra “Os Sertões – Campanha de Canudos“, em edição comemorativa e comentada da sempre cuidadosa Ateliê Editorial, tem vocabulário incomum, temas áridos e científicos que muitas vezes requerem bibliografia ou conhecimentos paralelos à obra. O rico prefácio, as mais de três mil notas e a cuidadosa reportagem iconográfica torna essa edição um trabalho competente, rigoroso, minuncioso e correto como poucos.

A cada leitura de Os Sertões novas descobertas são feitas, nada pode ser percebido em uma única análise e leitura. Li Os Sertões em minha jovem juventude, reli alguns trechos em momentos diferentes e agora, mais maduro, mas ainda jovem, planejo sua releitura. Sei que novas experiências e sensações me esperam.

Acredito que tenha sido Italo Calvino o autor de uma frase cujo teor se assemelha a: “… ao ler um clássico, de alguma forma, experimentamos uma releitura e não uma primeira leitura …”, àqueles que ainda não tiveram o prazer de experimentar Euclides da Cunha como cientista, artista e poeta, por favor, o façam, pois são poucos os que como ele conseguem unir um sábio sensível e versátil que nos informa com precisão científica o ambiente que será desfrutado por seus personagens a um artista que nos convence e encanta com palavras que se transformam em cores, formas, movimentos, sentimentos, sensações, sons, …

 

Por fim, aos que buscam mais desse autor hoje tem início um mini-curso/palestra do editor-executivo e colunista do jornal O Estado de São Paulo Daniel Piva em três encontros na Casa do Saber (informações e inscrições através do telefone (11) 3707-8900).