Novo Mutarelli: Nada me faltará

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , em 08/11/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Lourenço Mutarelli, autor do recém lançado Nada me faltará, pela Companhia das Letras é um caso raro no panorama das artes brasileira. No mercado editorial dos anos 80, ele era uma espécie de peixe fora d’água. Seu trabalho corria paralelo ao do mercado nacional que tinha como maiores expoentes Angeli, Glauco e Laerte. Publicou seu primeiro zine em 1988, na sequência fez algumas participações em revistas como a Animal e trabalhou nos estúdios Maurício de Souza. Em 1991, publica seu primeiro álbum em quadrinhos, o que era um grande feito para um desenhista pouco conhecido. Em Transusbstanciação, Mutarelli enche páginas de personagens e situações expressionistas ao extremo, com um visual excessivo e roteiros cheios de angústia onde já se pode identificar um senso de humor estranho. No final dessa fase ficaria mais conhecido pelas HQs da personagem Diógenes, em uma trilogia de quatro partes (!).

Decidiu, então, parar de fazer quadrinhos e, assim, avança a passos largos pela literatura, teatro e cinema. Em defesa de uma arte mais imaginativa e instigante, uma expressão mais nova, segundo o próprio Mutarelli, ele abandona um território onde estava estabelecido e já de início faz sucesso; seu romance de estréia O Cheiro do Ralo, de 2002, foi adaptado, com roteiro de Marçal Aquino e direção de Heitor Dhalia, com sucesso para o cinema em 2006.

Na sequência, escreve Natimorto (2004), A caixa de Areia (2007), A arte de produzir efeito sem causa (2008), Miguel e os demônios (2009) e o mais recente Nada me faltará (2010). Mestre dos diálogos enxutos e desconcertantes, Mutarelli se utiliza de sua experiência como quadrinista para produzir narrativas ao mesmo tempo próximas e distantes da arte sequencial. Sua capacidade de criar imagens com textos curtos e objetivos é impressionante. Dono de um texto rico, intenso, denso e ao mesmo tempo leve o valor estético de sua obra é capaz de impressionar mesmo aos menos atentos e o rapto que ele faz do leitor o coloca em outro patamar. Um dos mais expressivos, mas nem tão novo, expoente da literatura nacional.

Ao ler Nada me faltará entramos em contato com uma experiência artística que une a literatura e a arte sequencial. Sem nenhuma imagem o que aproxima seu mais recente romance da arte sequencial são os diálogos.

Outra experiência minimalista de Mutarelli; em A arte de produzir efeito sem causa já havia inovado o modo narrativo interseccionando narrador e personagem ao construir um objeto artístico em forma de livro que une a arte narrativa a sua impressionante capacidade de produzir imagens através de figuras não diretamente identificáveis, mas que nada ficam a dever às artes plásticas. Ao interseccionar essas manifestações artísticas Mutarelli se coloca definitivamente em patamar acima daqueles em que estão alguns dos maiores nomes da literatura nacional e abre espaço em território nem sempre acolhedor.

Nada me faltará não nos oferece nenhum desenho, nenhuma figura além das que encontramos nas quatro capas, tudo deve ser criado na imaginação do leitor. A história nos é oferecida apenas por diálogos. Apenas diálogos contam a história de Paulo que reaparece depois de estar, junto com a mulher e a filha, sumido por um ano.

Paulo reaparece sozinho e tentamos desvendar sua história [o mais interessante seria denvendá-lo] através dos diálogos que o cercam ou de que participa. Não há nenhuma intervenção narrativa além de diálogos. E diferente do que ocorre em Werther, de Goethe, não conhecemos a história pelos olhos da alma da personagem, mas por olhos sempre externos à personagem, e consequentemente à sua alma, ou àquele que julgamos ser a personagem desse interessantíssimo romance de Mutarelli.

O Inominável de Beckett

Postado em Literatura com as tags , , , em 07/06/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Preciso dizer algo.

Nesse semestre em uma disciplina chamada Teoria do romance em que tive a grata surpresa de conhecer Noemi Jaffe, uma intensa e brilhante professora, com quem tem sido ótimo conversar e discutir, estudamos Kafka e Beckett. No final de uma de nossas aulas disse a Noemi que ao ler O inominável eu conseguia perceber mais que uma impossibilidade. É verdade que o livro e a narrativa está repleta de impossibilidades, de não-caminhos, mas ao experimenta-lo percebia algo além disso, além da falta de perspectiva. Algo além da desesperança. Lá sentia uma espécie de início, não apenas o final. A falta de palavras. A falta de ter para onde ir. A falta de ter o que contar. A falta de perspectiva. A falta da capacidade de nomear o que quer que seja. No texto de Beckett havia, a meu ver, uma espécie de recomeço. Algo que fixava na história um ponto final, mas que também fixava nessa mesma história um ponto inicial. Um recomeço, uma nova “esperança”.

Falei, com a Noemi, como no parágrafo anterior, com muita sensação e pouca expressão ou precisão. Então ela, que sempre me escutou com atenção (aliás obrigado, muito obrigado), fez suas sempre precisas e interessantes considerações a respeito do que eu falara e finalmente me perguntou: “Onde, Milton? Onde você vê isso? Tem algum lugar específico? Entendo o que você está dizendo, mas faz uma coisa? Procura algum lugar específico no ou do texto que te traga essa sensação e traz a próxima aula, pode ser?” Eu com cara de quem se deu mal disse: “É mais uma sensação, mas vou terminar de ler e voltamos a falar sobre isso, ok?”

Nessa semana teremos nossa última aula e não encontrei exatamente o que quero. Não sei se voltaremos ao assunto. Ela já fez uma tentativa de retomá-lo, mas não aconteceu. Não sei se há necessidade de o retomarmos, mas preciso registrar essa sensação – que continua. Li com calma, com pressa, anotando, voltando, na rua, em casa, no café, no parque e em todos os lugares a sensação de recomeço, não sei se de esperança propriamente dita, mas de início e não apenas de final continua em mim.

Dentre os vários trechos que me chamaram atenção está:

“talvez já tenham me levado até o limiar da minha história, isso me surpreenderia, se ela se abrir, vai ser eu, vai ser o silêncio, ali onde estou, não sei, não saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.”

Que silêncio é esse proposto em O Inominável? Essa talvez seja uma das principais perguntas a ser feita ao texto, Maurice Blanchot, pergunta quem é esse “eu” que fala em O Inominável. Interessante pergunta. Já pudemos discutir sobre ela, mas o “silêncio” ou o “não-silêncio” de Beckett me instiga mais intensamente.

Acho que é nesse silêncio que ele busca seu verdadeiro idioma. O verdadeiro idioma de Beckett é o silêncio. Um silêncio que não sangra. Um silêncio que fermenta as palavras. Um silêncio onde ele possa calar em sua língua. Aquela só sua. A que ele reserva a seus sonhos.

Desculpem-me pelo post confuso ou estranho, mas com ele tento calar em português. Minha língua.

A arte de produzir efeito sem causa de Lourenço Mutarelli

Postado em Literatura com as tags , , , , , , , , , , , , , , em 05/06/2010 por Milton Sgambatti Júnior

O conhecia dos quadrinhos. Gostava, mas não era fã. Li O cheiro do ralo antes de ver o filme. Gostei bem mais que dos quadrinhos, embora pudesse “ver” cada um dos quadrinhos nos diálogos do livro preferia poder imaginar as imagens eu mesmo a ter o filtro do Lourenço pronto. Verdade que seu filtro é bem interessante, mas a literatura sempre me chamou mais atenção que a arte sequencial.

Nessa semana participei de um encontro promovido pela PUC-SP entre o escritor Marçal Aquino do interessante Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios e roteirista de O Cheiro do ralo e Elisabete Alfeld especialista em roteiro e estudiosa da arte narrativa – tanto literária quanto cinematográfica – e fiquei curiosíssimo sobre o novo livro do Mutarelli. Afinal de contas uma indicação do Marçal não deveria ser desprezada.

Sai da PUC passei na Cultura e comprei o livro, ele e outros dois, um do Cristovão Tezza e outro do Bernardo Carvalho. Tenho algumas sensações com a literatura contemporânea que preciso tirar a limpo e para ter uma opinião mais sólida tenho me dedicado especialmente a esses escritores. Comecei por a Arte de produzir efeito sem causa do Lourenço Mutarelli. Li em dois dias. Incrível. Confesso que o teria achado sencacional se no final não houvesse referência a uma possível doença do personagem principal, mas ainda assim o livro é incrível.

O que mais me chamou atenção nesse romance foi a forma como ele é narrado.

A maneira como Mutarelli é capaz de com poucas palavras imprimir imagens a seu texto e construir personagens complexos é realmente digna de um de nossos mais expressivos escritores contemporâneos.

Voltando ao que me chamou atenção nesse romance, preciso dizer que poucas vezes vi um narrador como o de A arte de produzir efeitos sem causa. Ele inaugura um novo tipo de narrador, algo após o narrador pós-moderno de Silviano Santiago.

Como narrar em terceira pessoa estando dentro do personagem? É a essa pergunta que Mutarelli responde, ou melhor, é essa questão que ele desenvolve em seu quarto romance, que segundo dizem é o primeiro narrado em terceira pessoa; particularmente não acho que ele o tenha narrado dessa forma. O que há nesse romance é uma nova forma de narrar. Uma narrativa em “terceira pessoa” de um narrador que se encontra o tempo todo “dentro” da personagem. É como se ambos estivessem em um mesmo lado do espelho e só pudessem ver seus reflexos olhando um para o outro.

Incrível, como se dá a construção do texto e de um personagem  que vive para pagar as contas e que, ao se livrar das contas que tinha para pagar, ainda continua imerso nessa vida sem sentido.

A pergunta que ele se faz é a mesma que Beckett: como nomear as coisas depois de tudo isso? Mesmo que tudo isso não tenha sido nada aos olhos da maioria.

Os interessados podem visitar o site http://www.mutarelli.com.br e descobrir um pouco mais desse, nem tão novo, nome da literatura nacional.

Eucanaã Ferraz e uma poética desconhecida

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , em 02/05/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Chamo essa poética de desconhecida, pois ainda não a conhecia. Incrível como algumas vezes me coloco no centro do Universo; normalmente sou mais altruísta, mas depois de ouvir o Eucanaã recitar seus poemas em uma mesa de debate em que também estava o Antonio Cícero me permiti pensar só no meu prazer e depois pensar nos outros.

Nesta semana a PUC-SP e a UAb – Universidade Aberta de Lisboa – organizaram o III Simpósio de Literatura e Crítica Literária – Poesia Contemporânea – Travessias Poéticas Brasil & Portugal. Em uma das mesas de debates estavam os poetas Eucanaã Ferraz e Antonio Cícero. Ainda não conhecia o Eucanaã, pelo menos não da maneira como o vi-conheci.

Vê-lo recitar seus poemas já teria valido o Simpósio, que delícia ouvir um cara como ele…

Saí de lá parei na Livraria Cultura e comprei um de seus livros o único que tinha na livraria, mas encomendei outros, cheguei em casa tarde, exausto e no dia seguinte teria mais do Simpósio e ainda teria aulas à tarde, mas não consegui dormir sem ter lido o livro, li no caminho, em casa, no sofá e fui pra cama com ele, acordei com alguns poemas na cabeça e com o livro na mão. Dormi abraçado com ele e percebi que me apaixonei por um novo poeta…

Liguei prum amigo e disse: Estou apaixonado! E ele: Mas, Milton me diz uma coisa, pelo amor de Deus, ela não é casada, né? Me matei de rir e disse, putz cara, na verdade, não sei, mas isso não importa.

Para terminar esse post deixo um poema do Eucanaã de um de seus livros, livros que agora ocupam minha cabeceira:

A palma da tua mão não tem segredo…

A palma da tua
mão não tem segredo
algum. Letra em tua mão
é de nome nenhum.
Não há mistério nem mensagem
no lenho aleatório.

Tua mão tem destino noutras palmas.
Confidência, piedade, ira. Deixa que,
aberta, distribua-se ao ponto – à perfeição –
de não ser mais tua mão: pátio,
pouso necessário de quem jamais te viu.

Por favor, deliciem-se com esse maravilhoso poeta. Conheçam-no, ao menos através de seu site: http://eucanaaferraz.com.br

A poesia de Mario Alex Rosa

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 18/02/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Semana passada tive minha aula inaugural do curso de mestrado em literatura e crítica literária na PUC. O tema era: a literatura e a crítica. Muito se falou sobre poesia, o papel da crítica e da palavra poética. Cida Junqueira, Maria Rosa Duarte e Noemi, como era de se esperar, foram brilhantes.

Lemos Marcelino Freire, Carlito Azevedo, Ana Luiza Amaral, Manoel de Barros e Manuel Bandeira. Falar sobre o quão interessante é ouvir a Maria Rosa falar sobre vocalidade e performance como ação corporal seria no mínimo pretencioso. Jamais conseguiria dar a vocês a impressão do que ela é capaz de perceber em textos poéticos.

Como disse Noemi, que conheci nesse dia, a poesia nos oferece uma leitura inaugural do mundo. E foi assim que fui para casa na semana passada: pensando e sentindo um pouco disso. Mais preparado que antes da aula acabei por ficar mais “atento” ao que estava a minha volta e hoje fui tocado por um poema do mineiro Mario Alex Rosa. Não vou falar sobre esse poema nem tentar fazer nenhum estudo ou análise, mas queria registrá-lo para que ele possa ser divulgado por mais esse meio.

A propósito Mario Alex Rosa tem poemas publicados nas revistas Dimensão, Inimigo Rumor, Cacto, Teresa e no Suplemento Literário de Minas. Participa da antologia O achamento de Portugal e prepara seu primeiro livro de poemas infantis.

Para não fugir à regra minha intenção era publicar o poema e só, mas acabei me estendendo… como disse Juliana Loyola: a literatura é um caminho sem volta! rs.

AO LADO DA TARDE
                  (Mario Alex Rosa)

Quando naquela tarde
depois da chuva, ao lado da janela,
olhava o arco-íris, lembrei
que aqui dentro o escuro prevalecia
longamente perto do amor

Daqueles dias recordo
as treze estrelas contadas
e a cada uma dizia:
aquela que cai infinitamente
é para lembrar de nossas alegrias. Mas
se indagar pelas outras respondo:
o amor tem ponto.

Retalhos de Craig Thompson

Postado em Literatura com as tags , , , , , , , em 24/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Muitas coisas me chamaram atenção neste livro. As primeiras delas aconteceram antes de iniciar sua leitura. A capa é muito interessante: uma colcha de retalhos cuidadosamente escolhida pelo autor para servir de fundo aos personagens do romance. Explorando um pouco mais, antes de encontrar o índice há a página de abertura do livro, aquela antes da que tem o ISBN e as informações que pegamos para uma possível bibliografia, alguns a chamam de página de rosto, não gosto do termo; o importante aqui é que nela há o nome do autor e o nome do livro que pelo que pude perceber tem subtítulo, pelo menos para catalogação, ele se chama Retalhos: um romance ilustrado.

É isso, ele não é um quadrinho para adultos, com violência ou sexo que possa beirar a pornografia. Nele uma história é contada e para isso Craig Thompson se utiliza de tudo o que tem nas mãos e principalmente daquilo que não tem.

A maneira como Thompson descreve, escreve e desenha sua relação com o irmão mais novo é de uma sensibilidade rara. Um romance em quadrinhos que me faria discutir sobre o gênero se ele ja não fosse assim tão discutido e, se me permitem, discutível. Feito para pessoas que tiveram dúvidas na adolescência e na vida em geral, àqueles que não tinham certeza, mas sempre se acharam na obrigação de parecer tê-las.

Muitas vezes vi minha vida, e ainda a vejo, como uma página em branco. Fico louco para deixar minha marca nela. Veja que insano: quero deixar minha marca em minha vida. Uma marca dela nessa página supostamente em branco, ainda que essa marca seja vista só por mim ou que, mesmo se vista pelo outros, seja temporária. Uma vez me perguntaram o porque de estudar tanto, de trabalhar tanto, não sei a resposta exata a essa pergunta, até porque o contexto era outro, mas a sensação de prazer e até de poder que isso me dá ninguém nunca me propiciou.

Craig Thompson faz isso, deixa sua marca, uma marca sua em sua vida. Fenomenal!

São páginas e páginas dedicadas a representar uma única sensação, ao ler Retalhos fiquei, o tempo todo, com a sensação de querer ir rápido, pois queria saber o que aconteceria e ao mesmo tempo preso à página atual explorando cada detalhe das ilustrações e o que elas me contavam. Putz, elas dizem mais que páginas e páginas de alguns romances modernos… uma delícia de ler, na verdade Retalhos é uma delícia de experimentar.

Me senti como a muito tempo não me sentia ao ler um livro, fiquei triste por ele estar acabando, pensei: Que droga!, e agora o que vou ler?

Um livro para aqueles que acreditam que um romance é feito de retalhos, àqueles que acreditam que a vida é feita de retalhos, àqueles que acreditam que as relações familiares são feitas de retalhos, àqueles que acreditam que suas relações, sejam amorosas ou não, sejam feitas de retalhos, àqueles que acreditam ser feitos de retalhos, e principalmente àqueles que querem participar do que pode ser o novo meio de contar histórias. Leiam!

Craig Thompson com Retalhos venceu três prêmios Harvey, dois Eisner e um da crítica da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos. É editado no Brasil pela Companhia das Letras – Quadrinhos na Cia – e tem tradução de um velho conhecido dos quadrinhos, o jornalista Érico Assis.

Agradecimentos especiais à Carlos Eduardo Siqueira, o Kadu, professor do curso de pós-graduação da PUC em São Paulo, pela indicação. É, também, por momentos como esse, uma indicação totalmente despretenciosa, em comentário disperso, no intervalo de uma aula de poesia brasileira que estar na PUC é realmente valioso.

Não sei se é digno de nota, mas sempre soube, desde o primeiro quadrinho que a história teria tom autobiográfico, mas o Craig do livro é para mim o “CRÉG” enquanto o autor é o “CREIGUI”.

Uma vez disse em uma aula que uma autobiografia era 50% ficção, pois era a visão do homem sobre ele mesmo e isso não poderia ser classificado como “relato” histórico, e os outros 50% também. Quase me mataram. Ô gente ortodoxa. rs.

Deixando o Pago de João da Cunha Vargas

Postado em Cultura, Literatura, Música com as tags , , , , , , , em 12/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

O nome desse livro de poemas “Deixando o Pago” de João da Cunha Vargas me faz lembrar uma história que ouvi do poeta gaúcho Vitor Ramil.

Em uma das vezes que o encontrei em São Paulo ele contou que viajava com seus músicos pelo Brasil e em uma de suas apresentações antes de ”cantar” o poema Deixando o Pago de João da Cunha Vargas explicou à seus expectadores o porque do título do poema. Pago é, para o natural do Rio Grande do Sul, seu lugar de nascimento, sua região natal, etc.

Depois da apresentação um de seus músicos disse:

- Pô Vitor, pensei que deixando pago fosse ‘tipo’ ter deixado o aluguel pago ou algo assim…

O Vitor se matou de rir e disse que quando canta Deixando o Pago adora explicar o título, pediu desculpas aos que já sabiam ou já conheciam a história, mas disse ainda não conseguir deixar de contá-la.

Há alguns anos consegui um exemplar da única edição do raro livro de poemas Deixando o Pago: poemas xucros de João da Cunha Vargas editado pela Habitasul. Uma edição simples, muito cuidadosa e lindamente ilustrada por Glênio Fagundes.

João da Cunha Vargas nasceu em 28/12/1900 e não foi além das primeiras letras, como ele mesmo costumava dizer, não era muito manso de livros. Certamente aprendeu os segredos que nos conta ao ranger dos bastos e no tranco das tropeadas, talvez por isso sua poesia mais que repete o que o povo diz, ela tem uma inscrição pessoal poucas vezes vista.

Um nativista que se aproxima ao extremo das fontes tradicionais da poesia, poesia brotada em estado de pureza, sem contaminações intelectuais, feita para ser lida e declamada. João da Cunha Vargas sabia todos seus versos de cór – literalmente de coração.

Os poemas desse livro foram ditados pelo poeta a seus familiares ou retirados de fitas gravadas da época em que João da Cunha Vargas ainda interpretava seus poemas, como dizem, recriando-os na palpitação dos seus gestos comandados pela palpitação com que vivia, com seu timbre de voz ímpar, na névoa de seu olhar, na mistura de fogo e de nostalgia…

O poeta não está mais entre nós e se da morte me afugento a ela me entregarei com esperança de poder ouvir cada um desses versos.

(…)

E vou levar quando eu for

No caixão algum trofeu:

Chilena, adaga, o chapéu,

Meu tirador e o laço

E o pala guapo no braço

Pra gauderiar lá no céu.

                                           (Gaudério)

João da Cunha Vargas e seus versos me perseguem, me ajudam na perseguição que faço. Ele e Vitor Ramil sempre retornam a minha vida e a mim. Nesta semana eles voltaram, não estavam longe, mas voltaram…

Vamos enfrentar-nos mais uma vez.

O poema Gaudério pode ser lido em http://letras.terra.com.br/vitor-ramil/200616/ e ouvido em http://www.youtube.com/watch?v=GbNKIh_dPdI

Ervas Daninhas de Alain Resnais

Postado em Cinema com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 05/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Inspirado no romance L’Incident de Christian Gailly, Ervas Daninhas do excelente diretor francês Alain Resnais concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2009 onde Resnais recebeu um prêmio especial pela importante e excepcional contribuição à história do cinema.

Hiroshima Mon Amour de 1959 e O Ano Passado em Marienbad de 1961 o consagraram como um dos grandes nomes da Nouvelle Vague.

Ainda em plena forma Resnais que também dirigiu Medos Privados em Lugares Públicos em cartaz desde 2007 no HSBC Belas Artes, cria uma história romântica surpreendente e tragicômica a partir de um tema mínimo e insignificante.

Marguerite Muir (Sabine Azéma de Pintar ou Fazer Amor e Beijo na Boca não) tem sua bolsa roubada na saída de uma loja, a propósito o início do filme é expetacular, o ladrão de sua bolsa joga suas coisas fora e sua carteira é encontrada por Georges Palet (André Dussollier de Amores Parisienses e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) que a entrega ao policial Bernard (interpretado pelo excelente Mathieu Amalric de Um Conto de Natal e O Escafandro e a Borboleta, mesmo em participação discreta). A partir daí a história se desenrola com a criatividade de um cineasta de espírito lúdico, sem amarras e tão livre quanto fascinado pelo mistério das paisagens mentais – suas e de seus expectadores.

Filmes como esse fazem com que eu admire ainda mais o cinema francês. Me sinto em débito por não ter escrito sobre os filmes de Christophe Honoré (Em Paris, Canções de Amor, La Belle June e o recente Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar), de Cédric Klapisch (As Bonecas Russas, Albergue Espanhol e Paris) ou de Philippe Claudel (Há Tanto Tempo Que Te Amo), mas preciso registrar meus mais sinceros agradecimentos aos Espaços que provilegiam uma programação de qualidade como O Espaço Unibanco de Cinema na Rua Augusta, O HSBC Belas Artes na Consolação e o Cine Bom Bril no Conjunto Nacional, o que seria de nós, amantes do bom cinema, sem eles?

Quanto a Ervas Daninhas veja o inusitado “trailer” em http://www.youtube.com/watch?v=ElZVyThr3xo e, não perca! Espere um pouco, antes de dizer: NÃO PERCA, deixe-me contar uma rápida história. 

Um dia no HSBC ao comprar ingresso uma das moças da bilheteria me disse:

- Esse filme é um musical!

Fiz uma cara de interrogação e um leve movimento de ombros, como quem não sabe o porquê de tal informação. Claro que eu sabia que era um musical!!!, mas ela me explicou:

- Não, moço, tô falando, pois tem gente que não sabe, não gosta de musical e depois quer o dinheiro de volta.

Olhei pro rapaz que estava rindo ao meu lado e disse sorrindo para a moça da bilheteria:

- Acho melhor você dizer que é um musical francês!

Se aprendi algo nesse dia foi que embora pareça desnecessário, vale a pena dizer:

Vá ver Ervas Daninhas, não perca!!!, mas lembre é um filme de um diretor formado na Nouvelle Vague e francês. rs.

Literatura em até 140 caracteres (no metrô)

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , em 02/01/2010 por Milton Sgambatti Júnior

Há alguns meses um grupo de amigos decidido a dar um “uso decente” ao twitter preparou microcontos em adesivos e os colou no vagões e estações do metrô de São Paulo.

“Entrou, se sentou. Ele não suportava o calor. Mas, com vagar, tentou se erguer pra sair outra vez.” Ao se depararem com a passagem que reflete sua própria condição, usuários do metrô de São Paulo reagem com certa perplexidade. O retrato literário colado na parede do vagão provoca risos, desprezo e, em alguns casos, reflexão. Assim, o trecho atinge ou se aproxima de atingir o objetivo proposto pelo grupo Sem Ruído, que espalhou microcontos em trens e estações do sistema de transporte público da cidade.

O exercício é inspirado na tradicional forma do haikai japonês e na cultura contemporânea da sticker art. É uma forma de fast food literário, as mensagens eram abertas, tinham começo, meio e fim, mas a interpretação e a relação de cada usuário do transporte público com cada uma delas era, naturalmente, pessoal.

É sempre difícil incentivar ou influenciar positivamente o comportamento das pessoas, mas iniciativas como essa deveriam ser mais comuns e não podem deixar de aparecer ou (re)aparecer na cidade. Sinto falta desses microcontos, com eles era mais divertido utilizar o metrô de São Paulo…

Poucas são as pessoas que pretendem tornar a vida das outras e da cidade melhor. Minha resolução de final de ano, dentre tantas outras, é tornar as pessoas tão felizes quanto eu mesmo gostaria de ser.

Posso fazer tudo errado, mas não ficarei parado. Quem se habilita?

Poesia no metrô

Postado em Cultura, Literatura com as tags , , , , , , , , , , , , , em 26/11/2009 por Milton Sgambatti Júnior

Há pouco mais de um mês os usuários do Metrô de São Paulo podem ler poemas de Camões, Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac, Alphonsus de Guimarães, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e outros. Principalmente nos horários de pico, ganhamos um motivo extra para não correr para garantir um lugar no vagão. Agora é possível, enquanto esperamos pelo próximo trem, deliciar-nos com alguns poemas.

A novidade ”invade”, inicialmente, os trens e as estações da linha verde e os poemas, em língua portuguesa, foram selecionados pelo poeta Cláudio Willer e por Carlos Figueiredo. O responsável pela direção de arte é o artista plástico Antônio Peticov.

Segundo a direção do metrô e a organização do projeto uma das principais intenções da iniciativa é provocar nos usuários o interesse pela leitura. A intenção é expandir a ideia a todas as estações do metrô paulistano em 2010.

Sabemos que mesmo quando não compreendemos um poema em toda sua extensão e intenção ele pode nos tocar de modo particular e modificar nossa relação com nosso corpo e com o outro.  Que essa seja a primeira de muitas atitudes que possam incentivar a leitura, em especial a leitura lírica.

Muitos não sabem, mas em São Paulo há locais nos quais podemos ter acesso à poesia todos os dias da semana. Saraus, leituras, leituras dramatizadas, acesso a livros, etc, com texto de poetas consagrados, contemporâneos e anônimos, não há restrição. Prometo divulgar uma breve lista assim que possível.

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