A arte de produzir efeito sem causa de Lourenço Mutarelli
O conhecia dos quadrinhos. Gostava, mas não era fã. Li O cheiro do ralo antes de ver o filme. Gostei bem mais que dos quadrinhos, embora pudesse “ver” cada um dos quadrinhos nos diálogos do livro preferia poder imaginar as imagens eu mesmo a ter o filtro do Lourenço pronto. Verdade que seu filtro é bem interessante, mas a literatura sempre me chamou mais atenção que a arte sequencial.
Nessa semana participei de um encontro promovido pela PUC-SP entre o escritor Marçal Aquino do interessante Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios e roteirista de O Cheiro do ralo e Elisabete Alfeld especialista em roteiro e estudiosa da arte narrativa – tanto literária quanto cinematográfica – e fiquei curiosíssimo sobre o novo livro do Mutarelli. Afinal de contas uma indicação do Marçal não deveria ser desprezada.
Sai da PUC passei na Cultura e comprei o livro, ele e outros dois, um do Cristovão Tezza e outro do Bernardo Carvalho. Tenho algumas sensações com a literatura contemporânea que preciso tirar a limpo e para ter uma opinião mais sólida tenho me dedicado especialmente a esses escritores. Comecei por a Arte de produzir efeito sem causa do Lourenço Mutarelli. Li em dois dias. Incrível. Confesso que o teria achado sencacional se no final não houvesse referência a uma possível doença do personagem principal, mas ainda assim o livro é incrível.
O que mais me chamou atenção nesse romance foi a forma como ele é narrado.
A maneira como Mutarelli é capaz de com poucas palavras imprimir imagens a seu texto e construir personagens complexos é realmente digna de um de nossos mais expressivos escritores contemporâneos.
Voltando ao que me chamou atenção nesse romance, preciso dizer que poucas vezes vi um narrador como o de A arte de produzir efeitos sem causa. Ele inaugura um novo tipo de narrador, algo após o narrador pós-moderno de Silviano Santiago.
Como narrar em terceira pessoa estando dentro do personagem? É a essa pergunta que Mutarelli responde, ou melhor, é essa questão que ele desenvolve em seu quarto romance, que segundo dizem é o primeiro narrado em terceira pessoa; particularmente não acho que ele o tenha narrado dessa forma. O que há nesse romance é uma nova forma de narrar. Uma narrativa em “terceira pessoa” de um narrador que se encontra o tempo todo “dentro” da personagem. É como se ambos estivessem em um mesmo lado do espelho e só pudessem ver seus reflexos olhando um para o outro.
Incrível, como se dá a construção do texto e de um personagem que vive para pagar as contas e que, ao se livrar das contas que tinha para pagar, ainda continua imerso nessa vida sem sentido.
A pergunta que ele se faz é a mesma que Beckett: como nomear as coisas depois de tudo isso? Mesmo que tudo isso não tenha sido nada aos olhos da maioria.
Os interessados podem visitar o site http://www.mutarelli.com.br e descobrir um pouco mais desse, nem tão novo, nome da literatura nacional.
25/10/2010 às 12:03
Olá Milton.
Também tenho uma recente curiosidade pela recente produção literária nacional e tenho gostado de algumas coisas que li. Ainda não li nada do Mutarelli e confesso que fiquei muito interessado neste título depois dessa resenha. Semana passada fui na Fest Comix e esse livro tava no estande da Cia das Letras, mas o desconto era muito pouco significativo e nem comprei. Quando eu ler, te falo das minhas impressões.
Abraço.
03/11/2010 às 23:15
Oi Jackson,
Leia. Esse título vale muito a pena, uma obra de arte. Depois comentamos suas impressões.
Abraço,