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012-milk-cartazGus Van Sant nunca foi um diretor comum “an ordinary director“, seus melhores trabalhos foram experimentais, com linguagem e montagem nada linear. Em Paranoid Park e em Elefante, a meu ver seu melhor longa, ele apresenta uma montagem em espiral magistralmente dirigida que de forma magnífica ordena os fatos de seus filmes.

Ao entrar no cinema para ver Milk tive receio de ver um filme fraco com uma ótima interpretação de Sean Penn, mas, felizmente, me surpreendi. Milk não é um filme gay. O roteirista californiano Dustin Lance Black (de séries de TV como Amor Imenso da HBO) faz o improvável: consegue não ser panfletário da causa gay ao contar a história de um ícone do movimento gay americano. Milk foi um homem à frente de seu cruel tempo, que sabemos não deixou de ser cruel com o passar dos anos.

O tratamento cuidadoso do roteiro dá a Milk um espírito universal que não retrata apenas a minoria gay, mas todas as minorias que de alguma forma se sentem reprimidas, humilhadas e sem proteção. O trabalho de Sean Penn é comovente. Ele equilibra a fragilidade doméstica de Harvey Milk com sua força na vida pública. Em determinada cena no filme um político preconceituoso, como muitos, diz: “você pode discutir comigo, mas nunca com Deus“, isso me lembrou de quanta maldade e barbaridade é feita em nome de Deus.
Ainda na sala de cinema me lembrei de uma pesquisa que li nos jornais dessa semana que revela que a minoria que mais causa repulsa nos brasileiros é o grupo de ateus, deixando os gays em “segundo” lugar e os negros em “terceiro“, cruel isso não? Quem usa em uma pesquisa de opinião pública a palavra repulsa para descrever outro ser humano? Impressionante!

Voltando ao longa e para entender o quão impressionante é a interpretação de Sean Penn podemos ver na sequência Sobre meninos e lobos e Milk e duvidar que a mesma pessoa é capaz de fazer esses dois papéis de modo tão convincente.

Além de Sean Penn meu primeiro destaque vai para a atuação de James Franco (de Homem Aranha) que torna Scott um dos personagens mais interessantes da trama, sua interpretação juntamente com a direção de Gus Van Sant reinventam o homem comum que ele interpreta; aquele que parece não estar lá, coadjuvante de toda a história, mas sempre presente, sólido e perfeito o tempo todo.
Meu segundo destaque vai para a melhor aparição de Emile Hirsch na tela, que interpreta Cleve Jones, espero, sinceramente, que ele consiga se livrar de Show de vizinha e de Speed Racer, pois demonstrou o quão seguro e convincente pode ser se tiver nas mãos a ajuda de um bom roteiro e o trabalho de um diretor sério.

O filme possui um ar documental alternando cenas reais com ficção, essas cenas em preto e branco ajudam a pontuar cada virada da trama de modo eficiente, discreto e sem alarde.
A trilha sonora e a fotografia são belíssimas e a participação, do real, Cleve Jones, como Don Amador fornece fidedignidade ao drama documental que é Milk.

Um filme feito por um brilhante diretor e com grandes interpretações masculinas. Como um Van Sant que se preze é imperdível, menor que Elefante ou Paranoid Park, mas devemos assisti-lo com as palavras de Harvey Milk na cabeça: “a liberdade é grande demais para ser enfiada pela soleira de uma porta fechada“, independente de nosso “conceito pessoal” de liberdade e seja essa porta qual for.

Após ver Milk fiquei com algumas coisas na cabeça: ao legislar, legislamos preconceito? Na política, ou na vida pessoal, será preciso forjar situações para conseguir vencer? É realmente preciso escolher entre o sucesso e um grande amor?
Harvey Milk não me ajudará a responder essas perguntas, mas gostei muito de conhecer um pouco da história de alguém com sua coragem.

Veja o trailer em: http://www.youtube.com/watch?v=kOCx5Bht9io

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2 pensamentos em “Filme: Milk

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