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foto de apresentação do Vitor Ramil no SESC-SP em 2008

Na época de minha jovem juventude esperava com muita expectativa pelo ano 2000, sabia que com ele bem mais que meus 28 anos chegariam. Nesse ano ouvi falar pela primeira vez de um gaúcho chamado Vitor Ramil, ele viria a São Paulo para apresentar seu mais recente CD gravado em duas versões (português e espanhol) que contava com algumas de suas milongas; segundo a chamada de sua apresentação ele cantaria algumas das poesias de João da Cunha Vargas e de Jorge Luis Borges.

Admirador de Borges e sem a menor idéia de quem seria João da Cunha Vargas ou Vitor Ramil me aventurei a vê-lo.

Depois de ouvir, conhecer e falar com Vitor Ramil entendi melhor o que José Saramago havia dito uma vez em um programa de televisão: “não perca tempo, mas não tenha pressa“.  Ouvir a música que ele encontrou em um dos poemas de Jorge Luis Borges, noutros de Fernando Pessoa, de Maiakóvski, de Rimbaud e principalmente do gaúcho João da Cunha Vargas foi uma das experiências mais impressionantes e inesquecíveis daquela noite.

Outra foi “conhecer” João da Cunha Vargas (1900 – 1980), um homem campeiro, poeta que jamais escreveu seus versos, guardando-os sempre “apenas” na memória e segundo dizem, homem a primeira vista simples, mas de uma sonoridade na voz que poucos possuiam. Vitor Ramil registrou em papel e já musicou quase toda sua obra, ao escrevê-la e depois musicá-la fez dela uma leitura como apenas outro rio-grandense conseguiria fazer.

Um dos poemas de João da Cunha Vargas de que mais gosto é Deixando o Pago que pode ser lido em http://www.paginadogaucho.com.br/poes/jcv-dp.htm e ouvido em http://www.mp3tube.net/br/musics/Vitor-Ramil-Deixando-o-Pago/67886/ sugiro que primeiro leia o texto e depois ouça-o na voz de Vitor Ramil, vencedor do Prêmio Tim de música brasileira na categoria voto popular. Além de imperdível esse contato fará com que você conheça parte de um Brasil que, infelizmente, poucos conhecem.

Outros dois poemas merecem referência, não apenas por suas singularidades, mas para mostrar a variedade da arte de Vitor Ramil. O primeiro deles é Noite de São João de Fernando Pessoa (leia em http://www.pessoa.art.br/?p=244 e ouça em http://www.youtube.com/watch?v=ZL5TVzkWPts), o outro, do folclore Uruguaio, é o deliciosamente sonoro Milonga (leia em http://letras.terra.com.br/vitor-ramil/200619/).

Desculpem-me pelo excesso de referências e links, mas quando falo desse assunto talvez me empolgue mais do que deveria. Noutro tópico falarei das coisas que Jorge Drexler e Vitor Ramil têm feito juntos, nesse queria escrever sobre o quão próximos estão poesia e música e deixar clara minha leiga opinião de que uma sempre serviu e servirá a outra.

Sem a música eu talvez nunca tivesse contato com a poesia de João da Cunha Vargas e sem a poesia de Jorge Luis Borges a música de Vitor Ramil estaria longe de me atrair em um primeiro instante.

Não sei dizer quem se sobressai nessa interrelação entre música e poesia, mas que somos os maiores beneficiados do resultado disso não tenho dúvida.

Ao relembrar essa história percebi que algumas coisas têm início em momento anterior ao que pensamos e que o melhor da juventude é o que vem com ela (e dela). Como disse Saramago continuo em frente, mas sem pressa.

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12 pensamentos em “A poesia de João da Cunha Vargas

  1. Belo post. Vitor Ramil é um criador musical que contribui muito para a reflexão das relações, limites e possibilidades de fusão entre poesia e música. E os links são referências ótimas. Parabéns.

  2. Ouço o Vitor há muito tempo, e também o conheci por influência de Borges – ainda hoje estava pensando nele, o Borges, que é uma droga e que vicia, e é um vício que só traz dor!
    Ainda hoje, Borges e Ramil são o pedaço de uma vida que ficou pra trás – são as melhores lembranças de minha juventude.
    Há uma parceira do Vitor com outro poeta gaúcho e da qual não tenho a gravação:

    Milonga Borgeana
    Milonga de sombra.

    Um tigre de quatro cores
    Perdeu-se em teu labirinto.

    Milonga Borgeana
    Espada de vento

    Nas calles de Buenos Aires
    Nas calles de mis entrañas.

    Confira neste link:

    http://seriealfa.com/tigre/tigre8/vaz.htm

    Deixando o Pago ainda me faz chorar.
    E Astronauta Lírico ainda me dá asas.

    Até mais!

    Marco Polo – SP

  3. Chore, voe, viva!
    Pode encontrar muitas coisas assim…
    Vou conferir o link e te digo depois.
    Abraço grande.

  4. hola, saludo el comentario inicial! no tengo la suerte de haber visto en vivo a Ramil, solo he generado una escucha atenta en los últimos años de su obra, y debo decir que gusto mas de esta que refiere a eso que el llama la estetica del frío, reflejada en ese maravilloso disco “Ramilongas”, donde no falta ni sobra nada; este último disco “Delibab” es una joya, sobre todo en la audacia de juntar dos poetas que pudieron haberse conocido, en la música encantada de las distintas milongas; sugiero la escucha muy atenta de “Chimarrao” y de “Tapera”, y por supuesto escuchar cantar a Caetano en lo que debe ser la primera vez que entona una milonga en un disco
    Salud amigos!!

  5. conheço o neto de joao da cunha vargas e ele tem fotos do avô poeta.
    Como é linda a liberdade
    Sobre o lombo do cavalo
    E ouvir o canto do galo
    Anunciando a madrugada
    Dormir na beira da estrada
    Num sono largo e sereno
    E ver que o mundo é pequeno
    E que a vida não vale nada.
    jcv

  6. Muito bom. Nasci e vivi na rua Visc. de Tamandaré, em Alegrete, onde morava o João da Cunha Vargas (ele morava na rua Tamandaré esquina com a Barão do Cerro Largo, na descida que leva ao rio Ibirapuitã). Eu o conheci pessoalmente e tive a magnífica experiência de ouvi-lo declamar seus poemas. Chego a me arrepiar…

  7. Poxa Antônio que maravilha… se eu me delicio com o Vitor recitando e cantando os poemas do Cunha Vargas imagino você que os ouviu de fato!!!
    Muito bom rapaz e obrigado pelo comentário.
    Abraço

  8. Parabéns Milton pelo post. Fico feliz em ler algo assim porque renova a minha esperança em ver a evolução cultural… Muito bom saber que outras pessoas ainda apreciam a arte. Sou apreciador da obra do Vitor Ramil. Tive o privilégio de nascer na cidade de Pelotas e crescer ouvindo também as músicas dele, um grande artista e ao mesmo tempo uma pessoa comum que pode ser vista comprando frutas e legumes numa feira de rua… tomando um mate no fim da tarde no Laranjal. O último show que assisti foi na cidade de Farroupilha na feira do livro 2010, poucas pessoas, ele o violão e uma e outra participação do filho. Uma apresentação sensacional com muitas músicas do novo trabalho chamado délibáb, que diga-se de passagem, é um trabalho não de música regional, mas sim de música universal. Um abraço.

  9. Somente percebi o que realmente era a estrela d’alva ao seguir de livramento para Bagé de madrugada, impossível a mente não remeter ao poema tão divulgado pelo Ramil em sua melodia.

  10. João Vargas era um homem meio baixo, até um pouco franzino. Se apresentava trajado de gaúcho, com um pala… De dentro dele – eu sempre achei que fosse de sua alma – brotava uma voz de gaúcho gaudério, com o espírito de um homem livre, como o são os pampeanos, uma voz meio rouca e cheia de poesia, que ia construindo versos de uma maneira natural, que emocionavam a todos nós, que há muito tempo, lá no Alegrete, tivemos o especial privilégio de ouvir este magnífico poeta da nossa terra.

  11. Pingback: Ramil y sus milongas borgianas « CASCO DE KAMIKAZE

  12. “… refletindo a angústia guarani;
    nostalgia do terço “Lau sus Cri”
    rezado ao por do sol nas reduções…”

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