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004. A festa da menina morta - cartazApós ter feito parte da seleção oficial de Cannes de 2008 e de ter sua primeira exibição no dia de abertura desse Festival, finalmente terá pré-estréia no próximo final de semana e estréia na segunda semana de junho o primeiro longa do paulista Matheus Nachtergaele: A festa da menina morta

Esse pulsante, delicioso e angustiante filme retrata um Brasil pouco conhecido pelo seu próprio povo, pelo menos pela maioria dos habitantes de seus grandes centros urbanos.

 

O filme conta a história de uma espécie de santo visceralmente interpretado por Daniel de Oliveira em atuação, como de costume, brilhante. Para alguns, inclusive para mim, Daniel de Oliveira já é o melhor ator brasileiro de sua geração. A intimidade com que ele incorpora as características de sua personagem faz com que a amemos e a odiemos em um mesmo momento do filme, isso faz a história tão real quanto seria se fizéssemos parte dela.

A escolha do elenco, mesclando os atores profissionais e os atores de teatro de Manaus com os selecionados na comunidade local, tem na participação pessoal e presencial de seu diretor seu grande diferencial. Matheus Nachtergaele fazia com que todo o elenco participasse de uma dança local para facilitar a integração e a concentração antes de iniciar cada dia de trabalho.

 

A festa da menina morta resgata uma época em que o cinema nacional retratava o nordeste brasileiro com a visão do poeta e artista local como em Deus e o diabo na terra do sol de Glauber Rocha ou em Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, já estava farto de ver os poucos filmes brasileiros que retratavam a região Norte serem feitos ou terem a visão do cineasta “estrangeiro” sobre a região, pois, embora muitos não aceitem somos estrangeiros em nosso próprio país.

 

Estrangeiro era Matheus Nachtergaele quando presenciou, no interior da Paraíba, um ritual pagão em que fiéis tinham verdadeira devoção pelas roupas de uma menina morta; inspirado nessa história desenvolveu o enredo. Nele uma comunidade ribeirinha, localizada às margens do Rio Negro no Amazonas, se dedica a adorar as roupas de uma menina tida como morta e que fala pela boca de Santinho (Daniel de Oliveira), uma espécie de líder espiritual que faz milagres e abençoa uma infinidade de pessoas todos os dias.

 

Em muitos momentos o filme é deliciosamente angustiante, vale lembrar aos que o forem ver, e acho que todos devem, pois é imperdível, que a primeira cena nos introduz àquela que mais nos atormentará durante todo o longa, mas nosso coração e cabeça puritanos nunca deixariam que isso se tornasse real antes de vermos a cena realizada na tela.

Não existe pudor nem cuidados desnecessários nessa fábula de uma população que almeja não mais que o bem viver.

 

Atores maravilhosamente dirigidos e em atuações impecáveis como as de Daniel de Oliveira, Jackson Antunes e Cássia Kiss e o som muito bem trabalhado em que muitas vezes o que se ouve é o som da cidade e não uma música que tem por intenção gerar este ou aquele sentimento dão o tom dessa fantástica história em que a personagem principal se transforma em sua agonia construindo e reconstruindo sua personalidade descobrindo-se humana, mortal e cheia de dor até que para ela não importa mais se suas crenças são ou não verdadeiras ou se seus dramas particulares são ou não importantes. Ela é o que seu povo quis que ela fosse.

Enfim Santinho torna-se “santo” e descobre que viver é sentir dor e que como líder religioso isso pouco importa se ele puder trazer conforto para os que nele crêem.

 

O mais obrigatório e poético dos recentes filmes nacionais. Matheus Nachtergaele novamente se revela um ser humano impar, assim como as personagens principais de seu primeiro longa.

Assista ao trailer em http://www.youtube.com/watch?v=74hgxdX-jhw

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3 pensamentos em “Filme: A festa da menina morta

  1. …o mais obrigatório e poético de todos, na minha opinião, é você! Saudades do amanhã…

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