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Preciso dizer algo.

Nesse semestre em uma disciplina chamada Teoria do romance em que tive a grata surpresa de conhecer Noemi Jaffe, uma intensa e brilhante professora, com quem tem sido ótimo conversar e discutir, estudamos Kafka e Beckett. No final de uma de nossas aulas disse a Noemi que ao ler O inominável eu conseguia perceber mais que uma impossibilidade. É verdade que o livro e a narrativa está repleta de impossibilidades, de não-caminhos, mas ao experimenta-lo percebia algo além disso, além da falta de perspectiva. Algo além da desesperança. Lá sentia uma espécie de início, não apenas o final. A falta de palavras. A falta de ter para onde ir. A falta de ter o que contar. A falta de perspectiva. A falta da capacidade de nomear o que quer que seja. No texto de Beckett havia, a meu ver, uma espécie de recomeço. Algo que fixava na história um ponto final, mas que também fixava nessa mesma história um ponto inicial. Um recomeço, uma nova “esperança”.

Falei, com a Noemi, como no parágrafo anterior, com muita sensação e pouca expressão ou precisão. Então ela, que sempre me escutou com atenção (aliás obrigado, muito obrigado), fez suas sempre precisas e interessantes considerações a respeito do que eu falara e finalmente me perguntou: “Onde, Milton? Onde você vê isso? Tem algum lugar específico? Entendo o que você está dizendo, mas faz uma coisa? Procura algum lugar específico no ou do texto que te traga essa sensação e traz a próxima aula, pode ser?” Eu com cara de quem se deu mal disse: “É mais uma sensação, mas vou terminar de ler e voltamos a falar sobre isso, ok?”

Nessa semana teremos nossa última aula e não encontrei exatamente o que quero. Não sei se voltaremos ao assunto. Ela já fez uma tentativa de retomá-lo, mas não aconteceu. Não sei se há necessidade de o retomarmos, mas preciso registrar essa sensação – que continua. Li com calma, com pressa, anotando, voltando, na rua, em casa, no café, no parque e em todos os lugares a sensação de recomeço, não sei se de esperança propriamente dita, mas de início e não apenas de final continua em mim.

Dentre os vários trechos que me chamaram atenção está:

“talvez já tenham me levado até o limiar da minha história, isso me surpreenderia, se ela se abrir, vai ser eu, vai ser o silêncio, ali onde estou, não sei, não saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.”

Que silêncio é esse proposto em O Inominável? Essa talvez seja uma das principais perguntas a ser feita ao texto, Maurice Blanchot, pergunta quem é esse “eu” que fala em O Inominável. Interessante pergunta. Já pudemos discutir sobre ela, mas o “silêncio” ou o “não-silêncio” de Beckett me instiga mais intensamente.

Acho que é nesse silêncio que ele busca seu verdadeiro idioma. O verdadeiro idioma de Beckett é o silêncio. Um silêncio que não sangra. Um silêncio que fermenta as palavras. Um silêncio onde ele possa calar em sua língua. Aquela só sua. A que ele reserva a seus sonhos.

Desculpem-me pelo post confuso ou estranho, mas com ele tento calar em português. Minha língua.

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2 pensamentos em “O Inominável, de Beckett

  1. “Penetra surdamente no mundo das palavras” e la encontrara o que procuras!

  2. “Penetra surdamente no mundo das palavras” e la encontraras o que procuras!

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