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374261_10150405621893840_54022008839_8467188_1659545114_nO cinema argentino sempre nos ofereceu bons momentos, mas vale dizer que, definitivamente, não são somente os dramas argentinos que valem muito a pena. Medianeras é um romance delicioso de se ver.

Medianeras, uma produção Argentina-Espanha com o argentino Javier Drolas e a espanhola Pilar López de Ayala, é uma história encantadora, narrada pelas próprias personagens que tentam se livrar das amarras de suas distintas e semelhantes solidões. Com a cidade e a arquitetura de Buenos Aires como cenário e personagem do romance ambos tentam se encontrar nessa populosa (?) cidade.

O estreante diretor Gustavo Taretto acerta em cheio quando retrata uma solidão que não nos assusta nem é dramática, pois convivemos com ela todos os dias: a solidão que sentimos quando estamos rodeados de desconhecidos. Uma solidão urbana que o filósofo alemão Walter Benjamin teria deliciado refletir se vivesse em nossa época. Se ele já pensava sobre essa ‘solidão’ e multiplicidade de opções na Paris do século XIX, imaginem o que ele pensaria vivendo em Buenos Aires, São Paulo, Nova York e até na Paris de hoje?

Sem correr o risco de contar o que não devo farei uma breve descrição do enredo de Medianeras:

Martin (Javier Drolas) é uma espécie de fóbico em processo de recuperação. Ele é um web designer que vive trancado em seu apartamento, em Buenos Aires, no qual vive uma espécie de realidade virtual. Mariana (Pilar López de Ayala), outra espécie de fóbica, acabou de terminar um longo relacionamento e sua cabeça está uma bagunça, assim como o apartamento onde se refugia com seus inanimados manequins. Martin e Mariana vivem no mesmo quarteirão, mas ainda que se cruzem pelo caminho eles não se encontram. Caminham pelos mesmos lugares, mas não percebem um ao outro.

Em uma cena que não fez parte da edição final do filme Mariana narra que os portenhos têm a imagem de serem pessoas reflexivas, introspectivas e ensimesmadas; personagens “cinzas”, pessimistas, solitários, nostálgicos, cabisbaixos. Mas ela possui uma teoria que explica essa imagem dos portenhos: eles têm essa imagem, pois vão pela vida esquivando-se de caca de perro, porque estão todo o tempo pensando em problemas existenciais. Não vão com a cabeça baixa por estarem deprimidos. Estão, na verdade, todo o tempo alienados buscando não pisar. Como vão se encontrar se quase não se olham? Essa é a razão de não perceberem que a cidade está cada vez mais feia. Estão tão concentrados no chão que não se dão conta do mundo que estão construindo.

Medianeras recebeu os prêmios de melhor filme estrangeiro e melhor diretor no Festival de Gramado de 2011. E ainda nos surpreendeu com a breve presença do escritor argentino Alan Pauls, autor do bom romance O passado como ex-namorado da personagem principal.

Àqueles que não sabem, medianeras é o nome dado àquelas paredes sem janelas tão comum nos edifícios dos centros urbanos latino-americanos, também chamadas de paredes cegas. Àquelas que por estarem tão próximas do terreno vizinho não podem ter janelas e são usadas para outdoors ou outro tipo de publicidade. Na Argentina, apesar da proibição de se ter janelas nessas paredes, muitos portenhos descumprem a lei e abrem, eles mesmos, tais janelas buscando que uma claridade extra entre em seus apartamentos.

Eles buscam por uma luz, por aquilo que não conseguimos ver quando estamos sob o céu. Gustavo Taretto sutilmente nos convida a reavaliar nossas próprias vidas, seu roteiro é capaz de despertar em nós a coragem necessária para que possamos abrir janelas, mesmo nos lugares onde achamos que não deveríamos abrí-las.

Mantin, em certa cena do filme, reflete um poco sobre sua condição solitária e sobre sua opção consciente de isolamento.

A internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida. Faço coisas de banco e leio revistas pela internet; baixo músicas, ouço rádio pela internet; compro comida pela internet; alugo e vejo filmes pela internet, converso pela internet, estudo pela internet, jogo pela internet, faço sexo pela internet…

Ele, como muitos de nós em menor ou maior grau, é vitima de um fenômeno social que tem se tornado cada vez mais forte, principalmente nas grandes cidades, tal fenômeno envolve a superficialização e fragilidade dos relacionamentos e o distanciamento afetivo das pessoas. Ironicamente o surgimento e o agravamento deste fenômeno coincide com a chegada da era digital. A promessa da tecnologia de nos tornar conectados e cada vez mais próximos uns dos outros não foi cumprida, as redes sociais e os inúmeros meios de contato que temos hoje acabaram nos distanciando e fomentando o surgimento de relacionamentos frágeis e efêmeros, capazes, na maioria das vezes, de durar por uma noite apenas ou tão somente enquanto durar o bate-papo na web. Esta ironia da vida moderna é explorada de forma fantástica por Gustavo Taretto.

Medianeras saiu recentemente em DVD e Blue-Ray e é imperdível. Vejam o trailer preparado para a internet em http://www.youtube.com/watch?v=fPc9D5eLLig e entendam o quão ridículo eu fui tentando descrever com palavras essa “película”.

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